Quase uma semana em Portugal e ainda não desci à terra... sabia que o regresso ia ser difícil, só não imaginei o quanto... afinal, o choque de voltar é maior do que o choque de chegar à Índia.
Sinto saudades de tudo e de todos, e aqui nada me satisfaz, tudo me entedia. Quase me assalta um sentimento de ingratidão por não conseguir dar resposta às saudades dos amigos e da família, mas...só o tempo poderá resolver esta insatisfação, este vazio, este desconforto. Claro que, no geral, tudo voltará a ser como dantes, mas, no particular, nada voltará a ser como dantes.
Tudo aquilo que inicialmente me causava estranheza e me irritava nos meus primeiros tempos de Índia, é aquilo que agora sinto mais falta... sobretudo, e irónicamente, aquela dimensão de tempo suspenso!
E agora é ao contrário: tudo aqui é estranho, ninguém me entende, está tudo do avesso, existe muita pressa e pouco tempo, a vida não se vive, a vida corre...
Fui para a Índia ensinar e, como só podia ser, quem aprendi fui eu. Ter de vir embora quando, depois de espernear e resistir (porque esperneamos e resistimos mesmo quando julgamos ter uma mente aberta), finalmente nos rendemos e começamos a viver, é como ter de acordar na melhor parte de um sonho.
Na Índia aprendi que posso viver com muito pouco, aprendi que preciso de muito menos do que julgava, aprendi que sou muito mais, aprendi que somos muito mais, e aprendi que cada segundo é só uma ponte suspensa entre o ontem e o amanhã.
A Índia ensinou-me que o tempo é só uma coisa inventada por tolos para medir a ilusão de estar vivo.
Por isso é que na Índia o tempo pára e começa a vida. Acima de tudo, isto me ensinou a Índia, sem que eu tivesse pedido ou notado: quando o tempo pára, começa a vida.
O que faz da Índia um país tão incrível é o facto de tudo ser possível. Mesmo tudo e de tudo, para todos os gostos. O grau de imprevisibilidade quando se vive na Índia é enorme e tudo, da coisa mais simples à mais complexa, se torna uma aventura. Além disto, a Índia troca-nos as voltas com a sua ordem no caos!
Ao início tudo é complicado e difícil, até percebemos que tudo funciona, que afinal tudo é simples demais, tudo é exactamente como tem de ser. Se calhar é por a vida ser tão simples na Índia que nos custa apreendê-la com um primeiro olhar.
É preciso vivê-la, experienciá-la, senti-la no corpo, baixar as defesas e deixar-nos envolver. A partir daí a experiência começa, mas só a partir daí. E quando damos por ela, estamos em casa em qualquer lugar e sentimo-nos bem em qualquer circunstância.
A Índia é um desafio mas talvez não seja para todos. E é preciso tempo e alguma disponibilidade, o que escasseia nos dias de hoje no vocabulário do nosso "ocidentalismo". O que é certo é que, depois da Índia, o horizonte se alarga e a vida se expande, depois da Índia tudo é possível, estendem-se os limites, quebram-se as barreiras, o tempo desaparece, e tudo o que sabíamos deixa de ser verdade, para que simplesmente e sem enganos, flutuemos ao sabor de nós.
Juliana, minha pipoquinha:
ResponderEliminarApaixonaste-te!
Sim, apaixonaste-te por uma terra - a Índia, por um povo - os Indianos, e por grandes amigos de lá e de outras partes do mundo.
Sim, porque podemos apaixonar-mo-nos por uma pessoa, e também por uma terra. Porque não?! Compreendo, ou penso que compreendo a tua tristeza... a tristeza de quem teve que partir e não sabe o que fazer com essa paixão! sente o sabor amargo da distância e das saudades, a vontade de fugir e deixar tudo para trás. O que posso dizer-te? Que tenhas paciência, que és muito nova, que tens uma vida pela frente e que a vida te vai ainda reservar muitas surpresas. Parte depende de ti, do teu querer e da determinação com que lutas pelos teus sonhos. Quando menos esperares, estarás lá novamente, ou noutra parte do mundo, onde serás feliz, como só sabe ser quem vive como tu, com intensidade e paixão. De qualquer forma bem-vinda a casa. Com todo amor da mamadi.
Querida menina, eu sabia que a India te ia marcar, alíás fiz futurimo ao dizer-te isso antes de ires. Fiquei com uma inveja tão grande ( Aquela inveja sã) isto também tu disse antes de ires para Cabo Verde quando me comunicas-te que depois era a India.
ResponderEliminarMas nunca pensei que fosse desta maneira...Também quero...