sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Enquanto eu me lembrar



Hoje foi um dia perfeito em Phagwara. Senti-me verdadeiramente Eu. Por vezes o calor é de tal forma que custa fazer qualquer movimento, por mais pequeno que seja e seja qual for a direcção. O facto de trabalhar apenas 40 minutos por dia faz com que a preguiça seja uma disposição que se vai apropriando de mansinho do ser. Mas hoje não. Hoje fui eu e foi tão bom. Levantei-me da cama toda ensonada, tomei o pequeno-almoço e "lecture, aqui vou eu!". 


A internet não funcionava e também não podia ouvir música ou ver um filme porque não tinha bateria no computador - tinha de comprar um conversor para o plug do meu carregador do Mac (parece complicado mas é simples), e além disso o livro que trouxe para me acompanhar chegou ao fim dos capítulos (Não te deixarei morrer, David Crockett - Miguel Sousa Tavares),  e a Focus portuguesa também não tinha mais artigos para dissecar. Restou-me então ser eu, como tento ser naturalmente, e como sou mesmo quando não tento ser, ou até sou mais eu quando não dou por ela. 


Quer isto dizer que pode ter sido a conjugação de vários factores ou pode ter sido a espontaneidade do momento que me fez sair do quarto e escrever em post-its cor-de-rosa palavras de mel e jasmim para colocar em cada porta de cada quarto do hostel, a desejar bom dia a cada habitante deste pequeno universo que nas últimas 3 semanas e por mais 3 semanas ainda (e só!) também é meu. Senti-me eu com vontade de surpreender, de iluminar o dia, de contagiar os segundos com a minha alegria de viver, de provocar sorrisos e gargalhadas, hoje ainda mais do que é costume. 


E como sempre acontece nestes dias perfeitos em que naturalmente somos nós, tudo é perfeito e nada poderia ser melhor ainda - fui para a cozinha do hostel (sim já temos cozinha, limpinha, espaçosa e ilumindada: perfeita!) e fiz o meu primeiro chapati


O resto do dia foi iluminado por este começo auspicioso, sem grandes novidades ou peripécias, entre os sorrisos silenciosos e tímidos das meninas do hostel, os agradecimentos pelos votos de bom dia, a curiosidade de uma professora designer de roupa sobre os motivos típicos portugueses (ficou encantada com os azulejos que lhe mostrei), os passeios pelas ruas poeirentas e quentes de Phagwara sob o olhar dos traseuntes que, caminhando pelo seu pé ou montados em motas arcaicas ou nos típicos rickshaws, nos observam de olhos abertos de espanto e mudos de rendição.


Numa das voltas desses passeios do mercado de Phagwara deu-se um acontecimento que tcompletou ainda mais a beleza deste dia: estavamos a comprar maçãs e pêras na rua quando uma sesnhora com os seus 60 anos decidiu meter conversa e interceder por nós junto do vendedor, não fosse ele enganar-nos.
Meter conversa é como quem diz, porque a senhora falava entre sorrisos e meias palavras em inglês, muitos gestos e sobretudo Hindi, mas lá nos conseguimos entender e a "Lady Smile"( foi assim que  baptizei porque tinha de a baptizar para sempre na minha memória de alguma maneira) não só fez questão de nos escolher a melhor fruta mas também de nos acompanhar até à escola e de se certificar que ficávamos bem entregues.


Durante este trajecto até à escola, conseguimos entender-nos entre palavras e grunhidos, gestos de mãos, acenos de cabeça e muitos olhares e sorrisos. Quando chegou o momento de atravessar a estrada (que é sempre um missão espalhafatosa e que implica a sua dose de coragem) agarrou-me a mão e olhou para um lado e para o outro, numa atitude maternal e amigável, e não me deixou passar enquanto não ficou segura de ser o momento certo, e eu respeitei, mesmo sabendo que poderia ter atravessado a rua momentos antes. Pela rua abaixo até ao colégio lá me disse que o marido tinha estado na BieloRússia e outras coisas mais que não consegui entender, e na sua cara resplandecia o orgulho de ir connosco lado a lado estrada fora, um orgulho contido e sereno de quem já viveu tudo o que tinha para viver e ainda assim não dispensa uma oportunidade de viver uma vez mais, enquanto os outros "Phagwarenses" nos contemplavam (e a ela também)  com olhos de interrogação e bocas caídas de curiosidade. Foi uma das melhores conversas da minha vida.






"Enquanto eu me lembrar, estarei vivo, porque esse é o mais certo indício de vida. Eu estarei vivo e, vivendo, não deixarei morrer quem caminhou comigo, ao longo do caminho. " MST, in Não te deixarei morrer, David Crockett















6 comentários:

  1. as coisas mais simples são sempre aquelas que mais nos preenchem! que lindo post, que linda experiência! beijos linda julie

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  2. Como vês minha filha, os dias podem ser perfeitos sem que para isso nos sejam dadas algumas condições especiais... basta que parta da nossa atitude interior.
    E, foi bonito o que fizeste, tornando o acordar de muita gente mais luminoso.
    Este começo "auspicioso" como tu lhe chamas foi o suficiente para que o teu dia também tenha sido mais luminoso. É bem verdade que aquilo que damos recebemos em dobro.
    Quanto aos teus dotes culinários, que eu bem conheço, ficas obrigada a fazer uma chapati para a família. Ok?
    E, termino, fazendo alusão à tua frase final...estando viva e vivendo não deixarás morrer quem caminhou contigo, ao longo do caminho. A Índia ficará contigo para sempre!

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  3. Olá!
    Eu chamo-me Madalena e sou colegado do teu pai.
    Esta tua viagem é linda!!!
    Estive na India (1º Gujarat e depopois na 2ª vez em Goa) e sou uma apixonada por essagentes, cultura e país.
    em Janeiro conto voltar.

    um beijinho e que aproveites muito essa humanidade ímpar,
    Madalalena

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  4. Obrigada :) eu ainda aqui estou mas também já conto voltar em breve :)

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  5. Iluminar o dia é o que fazes melhor! Beijinhos mana

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