Apercebi-me de repente que me restam apenas e só duas semanas na Índia e foi como se um murro no estômago viesse não sei de onde e me encostasse à parede. Não quero ir, ainda não.
Só mais uma semana, só mais um mês...ou dois.
Sei que as duas semanas vão voar, divididas entre aulas e viagens, reencontros e despedidas, sorrisos e lágrimas no canto do olho ou pela cara abaixo, e é quase impossível não viver a saudade antecipada da partida.
Como se agora, e por fim, me sentisse em casa, depois daqueles dias em que ainda me debatia por tentar mudar o ritmo das coisas, a cadência das acções, a natureza deste mundo novo.
Finda a batalha da adaptação, surge uma aceitação absoluta das coisas como elas são, uma vontade de permanecer na imutabilidade desta lentidão, um desejo de conservar este silêncio falado, esta solidão acompanhada, estas conversas mudas e estas horas sem minutos nem segundos.
Sinto agora uma compreensão intraduzível por tudo o que me rodeia e sinto também agora fazer parte deste universo circundante como se não fossemos entidades separadas mas uma só.
India está me no corpo mais ainda que no pensamento, está me na pele, nas pontas dos dedos e na ponta dos cabelos, e para bem da verdade, eu gosto assim, na pele, no corpo, na boca e no silêncio das noites quentes.
Para bem da verdade eu quero ficar, e ficando esquecer-me de mim.
Mergulhar no pó das ruas, afundar-me no caos da estrada, adormecer-me nas vozes gritadas que não entendo, perder-me em mil gestos de uma língua inventada entre nós só para estarmos mais perto, só para irmos mais dentro, para o outro lado de nós, de mim de ti, descobrir canções no vento quando a chuva cai depressa e cantar poemas virados do avesso quando o suor cai pelas costas e as mãos escorregam no calor dos dias.
Quero que me engulas na vertigem da tua poeira húmida pintada de açafrão e incenso, e que o tempo não seja mais que uma invenção sem sentido para prender-nos ao mundo dos homens e das coisas, e que perdido o sentido do tempo, a vida não seja mais que um doce compasso sem horas nem minutos, eternamente dançado ao som dos suspiros das madrugadas sem fim.
E se por fim nos cansarmos da nossa própria companhia, podemos fugir sem aviso, partir sem adeus, e voltar sempre sempre, quando a ânsia do regresso nos agarre frágeis e sedentos de nós.
E nos passos do caminho, nos meus pés descalços no caminho, no meu olhar perdido no caminho, no meu coração rendido no caminho, eu vou te encontrar mesmo quando não oiça a tua voz.
“Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. (…)
Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.”
Fantástico!!!!!!!!!!!
ResponderEliminarFica a alegria antecipada do regresso aguardado..