quarta-feira, 15 de setembro de 2010

I've been roaming around i was loking down to all i see...



Ainda não me fui embora e já estou com saudades daqui. Esmagadoras. Por mais que tente descrever como é estar aqui, por mais que tente explicar ou escrever tudo o que acontece e existe a cada minuto, não consigo expressar a multidão de sentimentos que por aqui vai.


É que por aqui, tudo é muito mais intenso, sobretudo quando o corpo e a cabeça já só conseguem estar aqui e já se esqueceram de como é estar noutro sítio qualquer. 


Sinto-me eléctrica e inquieta, e ao mesmo tempo é como se ainda estivesse a absorver tudo o que se tem passado nos últimos dias...como se isso fosse possível, para já. 
Não tenho sono, há uma reunião de sentimentos e pensamentos na minha cabeça e aparentemente eu não fui convocada - está para lá da minha racionalidade.


Por outro lado sinto-me numa outra dimensão, como se tudo me fosse perfeitamente conhecido, não de forma racional mas de forma intuitiva, como se a minha forma de estar, o meu ritmo interno, as minhas necessidades e prioridades se tivessem ajustado a esta Índia, a este ritmo, a esta poeira, a esta imprevisibilidade, a esta coisa que se entranha sem darmos por ela. 


Já me habituei de tal forma ao calor e humidade, que quando dou por mim no quarto esqueço-me de ligar a ventoinha. Já nem pergunto aonde vamos, nem a que horas o quê, já simplesmente estou e vou, e quando sei já estou ali, e a seguir não sei aonde. Já me habituei à chuva repentina e ás poças de água, à lama nos sapatos e a tudo o resto. Quando a comida não tem picantes parece faltar qualquer coisa. Esqueço-me das horas e dos dias.


Afinal, desde o princípio sempre soube o que tinha de saber, e tudo o tive enquanto cá estive, é tudo o que é preciso.


E agora acho que o choque vai ser quando voltar. Aquele sentimento de desajuste à realidade que tive na primeira semana na Índia. Aquela vontade de ainda aqui estar, aquela coisa do corpo estar aí e a cabeça ainda estar aqui. Aquela impotência para comunicar com todos os que nos esperam o que é que se está a passar aqui dentro. Como alguém que não está aí.


É quase ridículo tentar transmitir a dimensão de uma experiência como esta. 
É até contraditório porque sinto uma enorme vontade de partilhar todos os pormenores e ínfimos detalhes, mas por outro lado apetece-me guardar tudo só para mim, ou talvez seja só porque me sinto incapaz de escrever as coisas como elas são.


E olhando para trás tudo parece fácil e simples, como se de repente tudo o que foi choque e confusão, tudo o que era estranho e desencaixado fosse agora perfeitamente natural. O que pareceu difícil e quase insuportável ao início, agora é absolutamente óbvio e acertado. Todos os obstáculos e os desconfortos, todas as pedras no caminho, todas as privações, todos os rios, todos os montes, fazem sentido e foram fundamentais para enriquecer ainda mais a experiência e o sentido desta viagem. 


Se o nosso quarto no hostel tivesse ar condicionado, tivesse T.V. e casa de banho,  imagino que não teríamos saído daquele quarto e teríamos experienciado menos. Se tivessemos tido internet, provavelmente não teríamos dançado com as miúdas do hostel, não teríamos saído para o telhado para fazer brincadeiras malucas, não cantaríamos tanto e tudo seria diferente. Mas fomos nós, reinventámo-nos a cada barreira, imaginámos coisas impossíveis, inventamos formas de passar o tempo, cantámos, saltámos, rimos, interagimos, vivemos.


Transformar todas as diferenças em simbiose,  essa foi a verdadeira viagem, o verdadeiro desafio, a maior experiência de todas.


Andar nos piores autocarros, nas piores estradas, não fazer a menor ideia do que se está a passar, não entender nada do que se diz, desconhecer onde se vai dormir no dia seguinte, dormir e viver em condições completamente diferentes da nossa realidade habitual...nada de isso chateia, nada estranha, tudo encaixa perfeitamente e o que parece agora, é o evidente:
que afinal tudo aquilo que nos parecia faltar, não falta; tudo aquilo que era esquisito, afinal é normal, tudo aquilo  que parecia menos bom, agora é apenas de outra maneira. 


Como se tudo ficasse suspenso e o tempo parasse. 



5 comentários:

  1. Minha querida menina, dedica-te à escrita....Tu tens talento para tudo....és dotada...
    E mais estou toda inchada parece que vou rebentar....
    Mostrei o teu blog às minhas colegas de sala e elas logo: ela é igual a ti, principalmente no sorriso...

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  2. Quando estavas perto nada sabia sobre o teu rumo, agora que estás longe sei de todos os teus passos. A distância une os que se estimam, sem dúvida! Primocas aproveita esses momentos porque são únicos!

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  3. Minha querida filha, entendo a tua angústia agora que se aproxima a hora do regresso.
    Depois do que viveste, das amizades bonitas que fizeste, da cultura que absorveste, dos sítios incríveis onde estiveste, vai ser díficil deixar tudo e voltar. Mas, lembra-te, o que viveste nunca mais vais esquecer e talvez um dia possas voltar. E, aqui, neste cantinho da Europa, neste Portugal de que tanto gostas, há muita gente à tua espera, cheia de saudades e com vontade de te abraçar. A contagem decrescente já começou e estamos de braços abertos ansiosos por te rever. Volta feliz e mais completa! Beijos da mamadi

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  4. Que texto maravilhoso! Veio de ti outra coisa não era de esperar, espero conseguir publicar este post ;-
    Os seres humanos comuns conseguem ter uma vida linear, fazerem coisas que não gostam a vida toda, existem outros como tu que veem para além do óbvio! Não andam cá por andar, andam cá para deixar o seu cunha de pessoa maravilhosa e pretendem melhorar o mundo! O principizinho falava em laços! Tu és pássaro livre mas quando dás por ela, queres voar para outra terra e tens os nativos a pedir que não partas! És linda Rita! Deves vir com mais experiências destas semanas do que nós durante a vida toda! Estou certa que recordarás para sempre! Há um ditado que diz: "queres pouco, terás tudo". Tu queres muito melhorar a vida dos menos protegidos e queres pouco falsidade, pobreza de espírito, ansiosa por ter a verdadeira felicidade. As pessoas, nós todos, somos muito exigentes com a vida, até descobrirmos que há quem se encante com o teu abraço! Beijos e continua a crescer!Andei contigo ao colo e fico orgulhosa por estares crescida assim, de uma forma tão especial.

    Tina

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