Depois de duas semanas muito agitadas, com alguma dose de frustração e desapontamento, lá chegámos à escola onde estamos a trabalhar. Apesar de ser numa cidade pequena onde não se passa rigorosamente nada, para nós foi um momento muito ansiado, não só porque íamos começar a trabalhar, mas porque finalmente tínhamos um quarto só para nós, onde podemos deixar as coisas em segurança e ter uma "falsa" ideia de privacidade. Sim, porque privacidade é algo muito difícil de conseguir quando estamos nesta situação...por mais que queiramos é praticamente impossível ter um momento só para nós e acreditem que "esse momento só para nós" tem uma importância vital para o nosso bem estar, especialmente quando estamos na Índia.
Seja como for, aqui tudo é lento e complicado, quero eu dizer, demasiado lento e complicado. A cada minuto há impedimentos para isto ou para aquilo, as coisas mais básicas e fáceis de obter em qualquer país da Europa (e não só), aqui parecem uma verdadeira quimera, um milagre difícil de alcançar, e gastamos todas as nossas energias em tentativas consecutivas e sem êxito para satisfazer um pequeno pedido como comer ou dormir decentemente. Daí que no final do dia, mergulhemos num torpor e sejamos atingidos por um cansaço cuja origem não entendemos muito bem.
Estamos então instaladas no girls hostel da universidade onde estamos a dar aulas, e onde vivem cerca de 15 alunas com idades entre os 18 e os 21. Todas elas são super queridas, e tratam-nos com muito carinho, enchem-nos de mimos e olham para nós como se fossemos super estrelas. Até aqui, o convívio com estas meninas tem sido, para mim, o melhor da experiência, poder conversar com elas, perceber a realidade em que vivem, as suas ideias e aspirações. As diferenças são gigantescas, de tal forma enormes que é muito difícil explicar com palavras. Apesar de terem 19 e 20 anos, a sua mentalidade e experiência de vida correspondem a uma rapariga de 13 ou 14 anos na Europa. A maior parte nunca conheceu mais nada sem ser a sua pequena realidade familiar, e mesmo sendo curiosas, na generalidade aceitam sem questionar todas as "verdades" que a família lhe incutiu desde sempre.
Para estas miúdas, subir ao terraço e brincar na chuva, é o máximo de divertimento que podem conseguir, uma vez que só podem sair do colégio de 15 em 15 dias para ir directamente para casa... e quanto a rapazes, nem vê-los.
Uma delas chegou mesmo a dizer-nos na primeira conversa que tivémos. "this is a sweet jail... is so boring, just girls, girls, girls... college was suppose to be fun...".
E por enquanto é isto. Vamos ver o que se segue.
Pois é filha, o mundo é uma caixinha de surpresas e a Índia em particular será, (talvez nem sequer imaginasses o quanto), a prova, de que as diferenças culturais, sociais e económicas podem pesar sobremaneira e fazer toda a dferença, principalmente quando se é europeu e se está completamente só (embora rodeado de muita gente) nesses país tão grande, quanto tão pobre.Nesse país de contrastes, onde tudo é tão intenso e simultaneamente tão lento, a realidade para ti tem sido uma verdadeira prova de resistência e de coragem.
ResponderEliminarForça... tenta aproveitar da melhor forma possível, no contacto com essas meninas, naquilo que numa aula lhes pode ser transmitido, mas acima de tudo naquilo que informalmente e num contacto directo lhes podes dar, tornando esse convívio numa experiência que elas não esquecerão tão cedo.
Beijos mimha guerreira.
E, lembra-te, existe um provérbio oriental que diz que devemos aceitar com serenidade aquilo que não podemos mudar... assim, a Índia e os indianos são como são, há que aceitar isso!
Beijo grande da tua mamadi.
É isso mesmo...aceitar :) tenho pensado se talvez não seremos nós que estejamos a viver rápido demais?
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