Pelas razões menos felizes, lá tive de ir a Deli tratar do passaporte e do visto. Felizmente a minha colega de trabalho, Helen, da Ucrania, é uma pessoa 5 estrelas e teve a bondade de ir comigo, porque sozinha não teria sido fácil de todo e bem...ninguém da Aiesec Chandigarh se dispôs propriamente a ajudar neste tópico.
Adiante, lá nos metemos num autocarro, sem ar condicionado, rumo a Deli numa viagem de 5 horas, felizmente numa estrada bem melhor do que todas as outras em que temos viajado.
Obviamente não conseguimos pregar olho, nem sequer por um minuto, e às 6 da manhã o autocarro pára numa Deli quente, super povoada, caótica e mal cheirosa. O lixo estava espalhado por todo lado, desde os plásticos e papéis mais frequentes, até às fezes humanas espalhadas nos passeios, de tal forma que era preciso uma perícia de Cristiano Ronaldo, para conseguir fazer uma travessia segura pelas ruas, fintando toda a porcaria que se atravessava no caminho.
De forma a entrar no metro, tivemos de atravessar um enorme corredor coberto, sobre a estrada, e aí então a tristeza abateu-se sobre nós. O corredor estava cheio de pessoas a dormir no chão, descalças, sem nada de nada, e era quase impossível não tropeçar nelas. Aqui a pobreza e a miséria são tão grandes e tão frequentes, que o mais certo é que este convívio diário com a sujidade e a fome, se transforme em indiferença.
Durante duas horas tentamos manter-nos acordadas, porque a embaixada estava fechada e não havia rigorosamente nada aberto. Esganadas de fome e com os olhos semicerradas enfrentámos uma fila de indianos prontinhos a esmagarem-se uns aos outros para poderem entrar em primeiro lugar.
"Are you portuguese?" - perguntam-me. "Yes", respondo. E assim foi, em uma hora e meia tinha o passaporte temporário prontinho, mas o pior estava para vir - conseguir o visto.
Lá fomos, um bocadinho mais descansadas mas ainda esfomeadas e de olhos super pesados para o serviço de registo de estrangeiros: um caos absoluto onde reina a desordem e onde ninguém se entende e a palavra comunicação vale zero - e foi aqui que desesperei mesmo.
Depois de uma hora numa fila, chego finalmente ao balcão para ficar ali pendurada - lunch time.
E mesmo depois de almoço percebo que daquele balcão vou para outro, depois para outro, depois para mais outro, depois volto ao anterior, depois volto ao mesmo, e ninguém entende inglês, e quem entende não quer entender, e o ar está abafado e o estomâgo dói e os olhos quase quase fechados. Raios! Isto é fim do mundo! Isto é Índia.
No meio deste pesadelo interminável e ainda sem a certeza que teria o visto, lá fui conhecendo e partilhando com outros estrangeiros a quem tinham também roubado o passaporte, sobretudo espanhóis. E a mais de dez mil kilómetros de distância de casa, ACREDITEM, falar espanhol é quase quase como falar a língua materna - sabe bem :) "ai como é bom ser europeu", pensamos todos em voz baixa, e mesmo o que não dizíamos partilhámos em silêncio.
Disseram-me para voltar às 17h, ficava pronto naquele dia, iupi! MacDonalds, aqui vamos nós! No meio de tanta confusão, pó e suor, podem crer que o MacDonalds transforma-se subitamente num qualquer restaurante gourmet 5 estrelas. Quando voltámos estava quase pronto...quase quase. Ainda houve quem tentasse obrigar-me a sair so país no prazo de uma semana, mas graças a uma boa alma daquele serviço público indiano, foi me concedido o obséquio de permancer até à data da minha viagem de regresso.
Ufaaaaaaa. Respiro de alívio, e agora Chandigarh aqui vamos nós - são só mais 5 horas de viagem ser ar condicionado. E uma salva de palmas para a Juliana e para a Helen ;) YES WE CAN!
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