quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Confessional act / Esta lentidão que me desconcerta


No meu quarto dia na Índia, alguém me perguntou o que era mais difícil: se adaptar-me ao clima ou à comida. Seriam precisos mais 2 ou 3 dias para ter a resposta mais que absoluta: o mais difícil é adaptar-me a esta lentidão que me desconcerta de tal forma que me faltam palavras para expressá-lo.

Sei que o ritmo europeu é bem diferente, os horários a cumprir, os objectivos a alcançar, os prazos a ter em conta, a organização que procuramos em tudo... mas ser por natureza uma pessoa hiper dinâmica e super organizada complica ainda mais este ajuste a uma realidade que caminha (ou que se arrasta), sempre e em tudo, num compasso tão lento. E sei que o clima ajuda a esta preguiça, mas não é de todo fácil aceitar e incorporar isto com suavidade, por muito que o justifiquemos para nós próprios com mil e uma razões.

A mais simples actividade do quotidiano leva um tempo infinito a ser realizada, daí que quando pensamos em fazer qualquer coisa para lá do simples e fácil, sofremos por antecipação ao imaginar o que já sabemos: quanto tempo levará para consegui-lo. Tudo parece complicado, desde conseguir um carregador até aceder à internet, e para tudo é preciso permissão e justificação, é imperativo não só pedir, mas suplicar, implorar, e voltar a lembrar, e nem assim conseguimos fazer entender que precisamos mesmo disto ou daquilo.

E é com estranheza que nos olham quando intuitivamente percebem que algo não está bem ou que nos sentimos de alguma forma desconfortáveis (porque não nos queixamos, não nos queremos queixar e a resposta para a pergunta “Que tal a Índia?” é sempre “Bem...é um país extraordinário.”).

Vimos preparados para tudo e não queremos desistir, queremos trabalhar, queremos ajudar, queremos contribuir, foi por isso que viemos, foi por isso que largámos tudo e arriscámos dois meses da nossa vida para trabalhar de graça, e então, para onde é que nos viramos quando nem isso é possível? Viramo-nos para nós próprios, agarramo-nos ao que somos e inventamo-nos no que não somos, mais um dia, mais uma noite, mais um segundo, mais um minuto.

Temos garra e energia, juventude e sede de mundo, mas aqui pouco a pouco a força anímica vai-se desgastando, a cada hora o corpo e a mente se rendem um pouco mais, cedem um pouco mais a esta inércia.

Tudo é o contrário do que se esperava, mesmo quando não se esperava nada ou quase nada, e até mesmo quando se espera tudo e qualquer coisa.
Custam os segundos passados num quarto fechado, numa residência fechada de uma universidade fechada, e nós cá dentro fechadas para esse mundo de que temos tanta sede. Pesam as horas sem nada para fazer que não ver o tempo a passar pela janela de onde nem sequer corre uma aragem, uma lufada de ar fresco que possa insuflar-nos um sopro de luz e esperança.

Pelo menos estamos juntas nisto. Se não... seria muito pior”. Todos os dias pensamos 2 ou 3 vezes em antecipar o voo, e todos os dias pensamos 2 ou 3 vezes (convencemo-nos!) que seremos capazes de enfrentar este desafio até ao fim. “Amanhã talvez seja melhor. Talvez nos deixem dar uma hora inteira de aula. Talvez para a semana possamos dar aulas todos os dias.”

E no dia seguinte, nem sequer damos aula nenhuma, apesar de a termos preparado com o entusiasmo que nos caracteriza e que no impingimos a cada segundo, ora porque afinal as alunas vão ter outra actividade qualquer, ora porque não conseguem ligar o projector, ora porque não há microfone, ora porque...sim. E lá se vão os 40 minutos diários de aula que nos fazem ficar nesta cidade no meio do nada onde nada há para fazer que não seja ver o tempo passar, e a frustração instala-se, a decepção aprofunda-se, olhamos uma para a outra e perguntamo-nos “o que é que eu estou aqui a fazer?”.

Talvez alguém gostasse desta situação, para outra pessoa talvez fosse até bom só trabalhar 40 minutos por dia, mas para mim não é, e luto contra isto todos os dias mas não há maneira de mudar. Se ao menos houvesse uma maneira, uma receita mágica que me fizesse aceitar impotência de bom grado...mas aparentemente não há. Chego até a censurar-me intimamente por pensar nisto tudo e aponto o dedo à minha fraqueza, à minha teimosia em persistir nestas ideias; depois animo-me, rio para me enganar, danço para não chorar, mas nunca me arrependo de ter vindo.

E o tempo passa, uma vez mais. E assim são os dias, emocionalmente comparáveis a uma montanha russa - enquanto o sol nasce e a lua aparece, atravessam-nos os mais diversos sentimentos, desde alegria e entusiasmo, tristeza e angústia, para não falar daqueles que não consigo descrever.

E assim corre a vida em Phagwara: acordar, tomar banho, pequeno-almoço, lavar a roupa, estender a roupa, dar a aula, almoçar, tentar escrever, ler, ouvir música, ver um filme, cantar e dançar, gritar, cair na cama e olhar o tecto, preparar a aula, conversar, desesperar, animar, tentar dormir, dormir, acordar.
This is the ultimate experience, i think to myself.

Vim para me desafiar, para correr riscos, experienciar ao máximo a diferença e viver cada segundo e nem toda a lentidão do mundo me consegue dissuadir.
At the end, it all turns out to be life itself as a unique memory of time.

O que me cansa na alma e me gasta o corpo é a impotência, é esta sensação de inutilidade, é o querer fazer mais e não poder. Não é o calor nem a humidade, não é a diferença nem a sujidade, não é a comida picante nem a miséria circundante, e já nem é sequer esta lentidão: o que cansa é a não-acção.

É simplesmente estar e ver todo o potencial de um país desperdiçado, é participar deste ciclo que se repete a cada jornada sem que nada se mova mais do que um milímetro.

4 comentários:

  1. Motivos suficientes para trepar paredes, sem dúvida!!!! Mas acredito que tal como vi em Cabo Verde as pessoas vivem felizes assim, com esse ritmo lento, dando importância a outras coisas que nao o trabalho e os estudos, sem timings e um bocado no devagar se vai ao longe.
    Se pensares que nao vais estar aí assim tanto tempo, se não há projector há cartolinas e canetas. tenta abrandar e viver a esse ritmo, ou aproveita o tempo livre para viver a cultura dança ou costumes daí (escrever é facil ;) )
    CALIXTO

    ResponderEliminar
  2. Tranquila... :) O tempo é um conceito mesmo muito muito relativo. Eu cá acho sinceramente que nós por cá corremos demais... mas o equilibrio é que é preciso :) Beijinhos e boas experiências ;)

    ResponderEliminar
  3. Minha querida filha, leio nas tuas palavras a desilusão e a tristeza, mas também a coragem, a persistência e a determinação. Dinâmica e cheia de energia como és, percebo, que ainda se torna mais difícil encarar essa realidade. Mas, acredito, que esta experiência te está a fazer crescer e a ver o mundo de outra forma. Sei, que cada vez mais, dás valor ao que tens e ao país onde nasceste, e sei que apesar de tudo, esse teu grande coração não vai deixar de amar a Índia e as pessoas com quem te cruzaste nesse país. Força, minha guerreira. Um beijo cheio de saudades da tua mamadi.

    ResponderEliminar
  4. So true. Uma das coisas que se aprende na Índia é isso mesmo...esta noção de tempo é algo que nós criamos e já não conseguimos viver sem isto. Vivemos obcecados com relógios e calendários, telemóveis e computadores, e se isso nos falta, tiram-nos o tapete e ficamos sem saber o que fazer. E o que é que nos garante que nós é que estamos certos? :)

    ResponderEliminar