quinta-feira, 26 de agosto de 2010
Don't get me wrong ;)
Para que não haja mal entendidos, sinto-me na obrigação de escrever este post, face a uma impressão errada que o post anterior tem causado por aí nos corações e nas mentes de alguns amigos.
Naturalmente que expressar emoções e ideias apenas por palavras, fica muito aquém da comunicação não verbal que uma conversa cara-a-cara transmite, onde a voz, os olhos, as mãos, o corpo, tudo fala,; ainda assim, parece-me simples compreender quando se conhece a minha forma de estar na vida.
Apenas tento retratar da forma mais fiel que consigo (e acreditem, é uma missão quase impossível) aquilo que vejo e sinto, todos os dias e todos os segundos desta minha experiência. E isto significa, o bom e o menos bom, porque experienciar e vivenciar intensamente o que nos é radicalmente diferente tem sempre destas coisas, do bom e do menos bom (até nesse meu Portugal tão amado existem dois lados da mesma moeda).
Para mim não faria sentido suprimir um lado da experiência e dar a conhecer apenas o outro; pelo contrário, parece-me tremendamente mais enriquecedor partilhar com vocês tudo o que me for possível escrever em palavras (há coisas, momentos, olhares e cheiros que não são impossíveis de escrever).
Porque sim, a Índia é diferente, e há muita coisa a descobrir que não vem nos guias de viagem e que só podemos aprender e aceitar quando vivemos na pela e sentimos no corpo. Mas isto não faz da Índia um lugar menos bom, quanto muito, fá-lo mais diverso, mais misterioso, mais desafiante.
Posto isto, continuarei a tentar partilhar tudo o que me arrepia a espinha, a procurar descrever o que não tem descrição, a buscar significados para o que não tem sentido, e sempre da única maneira que conheço e posso - a minha.
E à minha maneira insisto, agora que já passou quase um mês da chegada:
Índia - "primeiro estranha-se, depois entranha-se"
e quando se entranha é para sempre.
quarta-feira, 25 de agosto de 2010
Confessional act / Esta lentidão que me desconcerta
No meu quarto dia na Índia, alguém me perguntou o que era mais difícil: se adaptar-me ao clima ou à comida. Seriam precisos mais 2 ou 3 dias para ter a resposta mais que absoluta: o mais difícil é adaptar-me a esta lentidão que me desconcerta de tal forma que me faltam palavras para expressá-lo.
Sei que o ritmo europeu é bem diferente, os horários a cumprir, os objectivos a alcançar, os prazos a ter em conta, a organização que procuramos em tudo... mas ser por natureza uma pessoa hiper dinâmica e super organizada complica ainda mais este ajuste a uma realidade que caminha (ou que se arrasta), sempre e em tudo, num compasso tão lento. E sei que o clima ajuda a esta preguiça, mas não é de todo fácil aceitar e incorporar isto com suavidade, por muito que o justifiquemos para nós próprios com mil e uma razões.
A mais simples actividade do quotidiano leva um tempo infinito a ser realizada, daí que quando pensamos em fazer qualquer coisa para lá do simples e fácil, sofremos por antecipação ao imaginar o que já sabemos: quanto tempo levará para consegui-lo. Tudo parece complicado, desde conseguir um carregador até aceder à internet, e para tudo é preciso permissão e justificação, é imperativo não só pedir, mas suplicar, implorar, e voltar a lembrar, e nem assim conseguimos fazer entender que precisamos mesmo disto ou daquilo.
E é com estranheza que nos olham quando intuitivamente percebem que algo não está bem ou que nos sentimos de alguma forma desconfortáveis (porque não nos queixamos, não nos queremos queixar e a resposta para a pergunta “Que tal a Índia?” é sempre “Bem...é um país extraordinário.”).
Vimos preparados para tudo e não queremos desistir, queremos trabalhar, queremos ajudar, queremos contribuir, foi por isso que viemos, foi por isso que largámos tudo e arriscámos dois meses da nossa vida para trabalhar de graça, e então, para onde é que nos viramos quando nem isso é possível? Viramo-nos para nós próprios, agarramo-nos ao que somos e inventamo-nos no que não somos, mais um dia, mais uma noite, mais um segundo, mais um minuto.
Temos garra e energia, juventude e sede de mundo, mas aqui pouco a pouco a força anímica vai-se desgastando, a cada hora o corpo e a mente se rendem um pouco mais, cedem um pouco mais a esta inércia.
Tudo é o contrário do que se esperava, mesmo quando não se esperava nada ou quase nada, e até mesmo quando se espera tudo e qualquer coisa.
Custam os segundos passados num quarto fechado, numa residência fechada de uma universidade fechada, e nós cá dentro fechadas para esse mundo de que temos tanta sede. Pesam as horas sem nada para fazer que não ver o tempo a passar pela janela de onde nem sequer corre uma aragem, uma lufada de ar fresco que possa insuflar-nos um sopro de luz e esperança.
“Pelo menos estamos juntas nisto. Se não... seria muito pior”. Todos os dias pensamos 2 ou 3 vezes em antecipar o voo, e todos os dias pensamos 2 ou 3 vezes (convencemo-nos!) que seremos capazes de enfrentar este desafio até ao fim. “Amanhã talvez seja melhor. Talvez nos deixem dar uma hora inteira de aula. Talvez para a semana possamos dar aulas todos os dias.”
E no dia seguinte, nem sequer damos aula nenhuma, apesar de a termos preparado com o entusiasmo que nos caracteriza e que no impingimos a cada segundo, ora porque afinal as alunas vão ter outra actividade qualquer, ora porque não conseguem ligar o projector, ora porque não há microfone, ora porque...sim. E lá se vão os 40 minutos diários de aula que nos fazem ficar nesta cidade no meio do nada onde nada há para fazer que não seja ver o tempo passar, e a frustração instala-se, a decepção aprofunda-se, olhamos uma para a outra e perguntamo-nos “o que é que eu estou aqui a fazer?”.
Talvez alguém gostasse desta situação, para outra pessoa talvez fosse até bom só trabalhar 40 minutos por dia, mas para mim não é, e luto contra isto todos os dias mas não há maneira de mudar. Se ao menos houvesse uma maneira, uma receita mágica que me fizesse aceitar impotência de bom grado...mas aparentemente não há. Chego até a censurar-me intimamente por pensar nisto tudo e aponto o dedo à minha fraqueza, à minha teimosia em persistir nestas ideias; depois animo-me, rio para me enganar, danço para não chorar, mas nunca me arrependo de ter vindo.
E o tempo passa, uma vez mais. E assim são os dias, emocionalmente comparáveis a uma montanha russa - enquanto o sol nasce e a lua aparece, atravessam-nos os mais diversos sentimentos, desde alegria e entusiasmo, tristeza e angústia, para não falar daqueles que não consigo descrever.
E assim corre a vida em Phagwara: acordar, tomar banho, pequeno-almoço, lavar a roupa, estender a roupa, dar a aula, almoçar, tentar escrever, ler, ouvir música, ver um filme, cantar e dançar, gritar, cair na cama e olhar o tecto, preparar a aula, conversar, desesperar, animar, tentar dormir, dormir, acordar.
This is the ultimate experience, i think to myself.
Vim para me desafiar, para correr riscos, experienciar ao máximo a diferença e viver cada segundo e nem toda a lentidão do mundo me consegue dissuadir.
At the end, it all turns out to be life itself as a unique memory of time.
O que me cansa na alma e me gasta o corpo é a impotência, é esta sensação de inutilidade, é o querer fazer mais e não poder. Não é o calor nem a humidade, não é a diferença nem a sujidade, não é a comida picante nem a miséria circundante, e já nem é sequer esta lentidão: o que cansa é a não-acção.
É simplesmente estar e ver todo o potencial de um país desperdiçado, é participar deste ciclo que se repete a cada jornada sem que nada se mova mais do que um milímetro.
quinta-feira, 19 de agosto de 2010
quarta-feira, 18 de agosto de 2010
finally working...or not!
Depois de duas semanas muito agitadas, com alguma dose de frustração e desapontamento, lá chegámos à escola onde estamos a trabalhar. Apesar de ser numa cidade pequena onde não se passa rigorosamente nada, para nós foi um momento muito ansiado, não só porque íamos começar a trabalhar, mas porque finalmente tínhamos um quarto só para nós, onde podemos deixar as coisas em segurança e ter uma "falsa" ideia de privacidade. Sim, porque privacidade é algo muito difícil de conseguir quando estamos nesta situação...por mais que queiramos é praticamente impossível ter um momento só para nós e acreditem que "esse momento só para nós" tem uma importância vital para o nosso bem estar, especialmente quando estamos na Índia.
Seja como for, aqui tudo é lento e complicado, quero eu dizer, demasiado lento e complicado. A cada minuto há impedimentos para isto ou para aquilo, as coisas mais básicas e fáceis de obter em qualquer país da Europa (e não só), aqui parecem uma verdadeira quimera, um milagre difícil de alcançar, e gastamos todas as nossas energias em tentativas consecutivas e sem êxito para satisfazer um pequeno pedido como comer ou dormir decentemente. Daí que no final do dia, mergulhemos num torpor e sejamos atingidos por um cansaço cuja origem não entendemos muito bem.
Estamos então instaladas no girls hostel da universidade onde estamos a dar aulas, e onde vivem cerca de 15 alunas com idades entre os 18 e os 21. Todas elas são super queridas, e tratam-nos com muito carinho, enchem-nos de mimos e olham para nós como se fossemos super estrelas. Até aqui, o convívio com estas meninas tem sido, para mim, o melhor da experiência, poder conversar com elas, perceber a realidade em que vivem, as suas ideias e aspirações. As diferenças são gigantescas, de tal forma enormes que é muito difícil explicar com palavras. Apesar de terem 19 e 20 anos, a sua mentalidade e experiência de vida correspondem a uma rapariga de 13 ou 14 anos na Europa. A maior parte nunca conheceu mais nada sem ser a sua pequena realidade familiar, e mesmo sendo curiosas, na generalidade aceitam sem questionar todas as "verdades" que a família lhe incutiu desde sempre.
Para estas miúdas, subir ao terraço e brincar na chuva, é o máximo de divertimento que podem conseguir, uma vez que só podem sair do colégio de 15 em 15 dias para ir directamente para casa... e quanto a rapazes, nem vê-los.
Uma delas chegou mesmo a dizer-nos na primeira conversa que tivémos. "this is a sweet jail... is so boring, just girls, girls, girls... college was suppose to be fun...".
E por enquanto é isto. Vamos ver o que se segue.
Seja como for, aqui tudo é lento e complicado, quero eu dizer, demasiado lento e complicado. A cada minuto há impedimentos para isto ou para aquilo, as coisas mais básicas e fáceis de obter em qualquer país da Europa (e não só), aqui parecem uma verdadeira quimera, um milagre difícil de alcançar, e gastamos todas as nossas energias em tentativas consecutivas e sem êxito para satisfazer um pequeno pedido como comer ou dormir decentemente. Daí que no final do dia, mergulhemos num torpor e sejamos atingidos por um cansaço cuja origem não entendemos muito bem.
Estamos então instaladas no girls hostel da universidade onde estamos a dar aulas, e onde vivem cerca de 15 alunas com idades entre os 18 e os 21. Todas elas são super queridas, e tratam-nos com muito carinho, enchem-nos de mimos e olham para nós como se fossemos super estrelas. Até aqui, o convívio com estas meninas tem sido, para mim, o melhor da experiência, poder conversar com elas, perceber a realidade em que vivem, as suas ideias e aspirações. As diferenças são gigantescas, de tal forma enormes que é muito difícil explicar com palavras. Apesar de terem 19 e 20 anos, a sua mentalidade e experiência de vida correspondem a uma rapariga de 13 ou 14 anos na Europa. A maior parte nunca conheceu mais nada sem ser a sua pequena realidade familiar, e mesmo sendo curiosas, na generalidade aceitam sem questionar todas as "verdades" que a família lhe incutiu desde sempre.
Para estas miúdas, subir ao terraço e brincar na chuva, é o máximo de divertimento que podem conseguir, uma vez que só podem sair do colégio de 15 em 15 dias para ir directamente para casa... e quanto a rapazes, nem vê-los.
Uma delas chegou mesmo a dizer-nos na primeira conversa que tivémos. "this is a sweet jail... is so boring, just girls, girls, girls... college was suppose to be fun...".
E por enquanto é isto. Vamos ver o que se segue.
sexta-feira, 13 de agosto de 2010
quinta-feira, 12 de agosto de 2010
quarta-feira, 11 de agosto de 2010
Oh, Delhi...
Pelas razões menos felizes, lá tive de ir a Deli tratar do passaporte e do visto. Felizmente a minha colega de trabalho, Helen, da Ucrania, é uma pessoa 5 estrelas e teve a bondade de ir comigo, porque sozinha não teria sido fácil de todo e bem...ninguém da Aiesec Chandigarh se dispôs propriamente a ajudar neste tópico.
Adiante, lá nos metemos num autocarro, sem ar condicionado, rumo a Deli numa viagem de 5 horas, felizmente numa estrada bem melhor do que todas as outras em que temos viajado.
Obviamente não conseguimos pregar olho, nem sequer por um minuto, e às 6 da manhã o autocarro pára numa Deli quente, super povoada, caótica e mal cheirosa. O lixo estava espalhado por todo lado, desde os plásticos e papéis mais frequentes, até às fezes humanas espalhadas nos passeios, de tal forma que era preciso uma perícia de Cristiano Ronaldo, para conseguir fazer uma travessia segura pelas ruas, fintando toda a porcaria que se atravessava no caminho.
De forma a entrar no metro, tivemos de atravessar um enorme corredor coberto, sobre a estrada, e aí então a tristeza abateu-se sobre nós. O corredor estava cheio de pessoas a dormir no chão, descalças, sem nada de nada, e era quase impossível não tropeçar nelas. Aqui a pobreza e a miséria são tão grandes e tão frequentes, que o mais certo é que este convívio diário com a sujidade e a fome, se transforme em indiferença.
Durante duas horas tentamos manter-nos acordadas, porque a embaixada estava fechada e não havia rigorosamente nada aberto. Esganadas de fome e com os olhos semicerradas enfrentámos uma fila de indianos prontinhos a esmagarem-se uns aos outros para poderem entrar em primeiro lugar.
"Are you portuguese?" - perguntam-me. "Yes", respondo. E assim foi, em uma hora e meia tinha o passaporte temporário prontinho, mas o pior estava para vir - conseguir o visto.
Lá fomos, um bocadinho mais descansadas mas ainda esfomeadas e de olhos super pesados para o serviço de registo de estrangeiros: um caos absoluto onde reina a desordem e onde ninguém se entende e a palavra comunicação vale zero - e foi aqui que desesperei mesmo.
Depois de uma hora numa fila, chego finalmente ao balcão para ficar ali pendurada - lunch time.
E mesmo depois de almoço percebo que daquele balcão vou para outro, depois para outro, depois para mais outro, depois volto ao anterior, depois volto ao mesmo, e ninguém entende inglês, e quem entende não quer entender, e o ar está abafado e o estomâgo dói e os olhos quase quase fechados. Raios! Isto é fim do mundo! Isto é Índia.
No meio deste pesadelo interminável e ainda sem a certeza que teria o visto, lá fui conhecendo e partilhando com outros estrangeiros a quem tinham também roubado o passaporte, sobretudo espanhóis. E a mais de dez mil kilómetros de distância de casa, ACREDITEM, falar espanhol é quase quase como falar a língua materna - sabe bem :) "ai como é bom ser europeu", pensamos todos em voz baixa, e mesmo o que não dizíamos partilhámos em silêncio.
Disseram-me para voltar às 17h, ficava pronto naquele dia, iupi! MacDonalds, aqui vamos nós! No meio de tanta confusão, pó e suor, podem crer que o MacDonalds transforma-se subitamente num qualquer restaurante gourmet 5 estrelas. Quando voltámos estava quase pronto...quase quase. Ainda houve quem tentasse obrigar-me a sair so país no prazo de uma semana, mas graças a uma boa alma daquele serviço público indiano, foi me concedido o obséquio de permancer até à data da minha viagem de regresso.
Ufaaaaaaa. Respiro de alívio, e agora Chandigarh aqui vamos nós - são só mais 5 horas de viagem ser ar condicionado. E uma salva de palmas para a Juliana e para a Helen ;) YES WE CAN!
Adiante, lá nos metemos num autocarro, sem ar condicionado, rumo a Deli numa viagem de 5 horas, felizmente numa estrada bem melhor do que todas as outras em que temos viajado.
Obviamente não conseguimos pregar olho, nem sequer por um minuto, e às 6 da manhã o autocarro pára numa Deli quente, super povoada, caótica e mal cheirosa. O lixo estava espalhado por todo lado, desde os plásticos e papéis mais frequentes, até às fezes humanas espalhadas nos passeios, de tal forma que era preciso uma perícia de Cristiano Ronaldo, para conseguir fazer uma travessia segura pelas ruas, fintando toda a porcaria que se atravessava no caminho.
De forma a entrar no metro, tivemos de atravessar um enorme corredor coberto, sobre a estrada, e aí então a tristeza abateu-se sobre nós. O corredor estava cheio de pessoas a dormir no chão, descalças, sem nada de nada, e era quase impossível não tropeçar nelas. Aqui a pobreza e a miséria são tão grandes e tão frequentes, que o mais certo é que este convívio diário com a sujidade e a fome, se transforme em indiferença.
Durante duas horas tentamos manter-nos acordadas, porque a embaixada estava fechada e não havia rigorosamente nada aberto. Esganadas de fome e com os olhos semicerradas enfrentámos uma fila de indianos prontinhos a esmagarem-se uns aos outros para poderem entrar em primeiro lugar.
"Are you portuguese?" - perguntam-me. "Yes", respondo. E assim foi, em uma hora e meia tinha o passaporte temporário prontinho, mas o pior estava para vir - conseguir o visto.
Lá fomos, um bocadinho mais descansadas mas ainda esfomeadas e de olhos super pesados para o serviço de registo de estrangeiros: um caos absoluto onde reina a desordem e onde ninguém se entende e a palavra comunicação vale zero - e foi aqui que desesperei mesmo.
Depois de uma hora numa fila, chego finalmente ao balcão para ficar ali pendurada - lunch time.
E mesmo depois de almoço percebo que daquele balcão vou para outro, depois para outro, depois para mais outro, depois volto ao anterior, depois volto ao mesmo, e ninguém entende inglês, e quem entende não quer entender, e o ar está abafado e o estomâgo dói e os olhos quase quase fechados. Raios! Isto é fim do mundo! Isto é Índia.
No meio deste pesadelo interminável e ainda sem a certeza que teria o visto, lá fui conhecendo e partilhando com outros estrangeiros a quem tinham também roubado o passaporte, sobretudo espanhóis. E a mais de dez mil kilómetros de distância de casa, ACREDITEM, falar espanhol é quase quase como falar a língua materna - sabe bem :) "ai como é bom ser europeu", pensamos todos em voz baixa, e mesmo o que não dizíamos partilhámos em silêncio.
Disseram-me para voltar às 17h, ficava pronto naquele dia, iupi! MacDonalds, aqui vamos nós! No meio de tanta confusão, pó e suor, podem crer que o MacDonalds transforma-se subitamente num qualquer restaurante gourmet 5 estrelas. Quando voltámos estava quase pronto...quase quase. Ainda houve quem tentasse obrigar-me a sair so país no prazo de uma semana, mas graças a uma boa alma daquele serviço público indiano, foi me concedido o obséquio de permancer até à data da minha viagem de regresso.
Ufaaaaaaa. Respiro de alívio, e agora Chandigarh aqui vamos nós - são só mais 5 horas de viagem ser ar condicionado. E uma salva de palmas para a Juliana e para a Helen ;) YES WE CAN!
sábado, 7 de agosto de 2010
First time in India? Oh...bad experience.
Foi tal e qual assim o que me disse a rapariga indiana que durante 8 horas de viagem de autocarro se tinha mantido completamente emudecida.
Uma viagem dura, penosa, cansativa e desafiante. Ser roubada na India, a dez mil kilometros de distancia de casa parece pior do que ser roubada em qualquer cidade da europa: por muito que saiba que nao fui a primeira e que nao serei a ultima, custa sempre, principalmente quando ficamos sem passaporte e de repente ninguem parece entender ingles.
Uma dica: nunca, mas nunca tirar a mochila das costas, nem que seja por um segundo e estejamos a 30 cm dela. Mais vale ir a uma casa de banho e tira la das costas e voltar a coloca-la. E muito cuidado nos autocarros, ainda que a viagem seja de dez horas ou mais, tomem cafes ou vitaminas, mas nao fechem os olhos.
No momento tudo pareceu um pesadelo interminavel: o roubo, a impossibilidade de comunicacao com a policia e com as pessoas, o calor, a humidade, a sujidade, o autocarro atolado de gente, a estrada sem luz que mais parecia uma montanha russa... e apesar de eu ter a nocao que mais tarde ou mais cedo esta historia se iria converter em mais uma grande experiencia e uma licao de vida, incrivelmente o lado racional simplesmente recusou se a aparecer durante umas longas horas... mas acabou por aparecer, claro.
A cereja no topo do bolo nesta viagem terrorifica foi quando pedi para pararmos porque nao aguentava mais a aflicao: tinha de ir a casa de banho!
Primeiro, fiquei surpreendida com a "quase rapidez" com que atenderam ao meu pedido, para logo em seguida perceber que teria de ser ali mesmo:
entao, a beira da estrada, sem pudor nem orgulho, tive de levantar a saia e fazer xixi perante uma plateia de trinta e tal indianos que olhavam extasiados colados aos vidros da janela - Welcome to India.
Depois disto tudo, o pior que veio foi o grande desapontamento comigo propria, a vozinha na cabeca a dizer: "miuda, viajaste para tanto lado, sozinha, acompanhada, de comboio, de carro, de aviao, em paises civilizados e em paises do outro mundo, e sempre, sempre sempre foste tao esperta, cuidadosa e atenta... e agora, por um minuto de distraccao pimba!" devia ter estado mais atenta, ou mais alerta e , infelizmente ser mais desconfiada (e que eu detesto ser desconfiada). Mas pronto, la me perdoei a mim propria e segui em frente.
Lembro me de muita coisa me ter passado pela cabeca, desde "mas eu nao merecia isto, sou tao boa pessoa", "vem uma pessoa trabalhar de graca para a India, para ajudar o pais e e esta a paga que recebe", "mas como e que eu nao consegui evitar isto", "ai se eu pudesse voltar atras aquele minuto", "se calhar isto e um sinal, do genero, roubam me as coisas para eu entender verdadeiramente a India, porque a maioria das pessoas vive na miseria e nao tem nada, e o material nao e o mais importante na vida", as coisas que se atiram para o ar no calor do momento e da desilusao.
No dia seguinte, ainda com um turbilhao de pensamentos na cabeca, enquanto (acreditavam eles) me tentavam relaxar numa casa de shisha, dei comigo entre dois indianos e dois ucranianos, a falarem as suas linguas maes, e eu ali solta a olhar para o tecto... e sem tristeza ou autocomiseracao, enchi me de orgulho por ser quem sou e como sou, por ter escolhido este desafio de querer vir para um sitio tao diferente e onde nao estivesse nem mais um portugues, por enfrentar as adversidades sem lhes virar as costas e por, ainda assim, nunca perder a docura, a fe e a crenca infinita nas pessoas e no amor.
O facto de este imprevisto ter acontecido nao me impede de continuar a experienciar ao maximo todos os segundos, se assim fosse eu nao seria eu.
Pelo contrario, agora vou experienciar a dobrar, porque nem pensem que saio daqui sem levar o coracao bem cheio de emocoes e boas memorias e bem vazio de magoa: India, continuo a gostar de ti, com todas as tuas imperfeicoes.
domingo, 1 de agosto de 2010
Ponto 2- Communication&terrorism
Comunicar na Índia é bastante fácil porque toda a gente fala inglês e, apesar das pronúncias serem bastante diferentes, sempre se reforça a mensagem com alguma linguagem gestual.
Por outro lado, quando começam a falar hindi entre eles é realmente impossível entender até as intenções do discurso, mas enfim, é uma daquelas coisas sobre as quais não vale a pena pensar muito porque nunca sabemos o que estão a dizer.
Arranjar um cartão Sim - a saga: conseguir um cartão para o telemóvel tem sido complicado nos primeiros dias, mas finalmente consegui perceber porquê. Para nós em Portugal é super fácil comprarmos os cartões que quisermos do operador que quisermos e entendermos sem grandes satisfações ou nenhumas mesmo.
Ora aqui a razão pela qual se torna mais difícil conseguir um cartão é a mesma pela qual somos revistados cada vez que entramos no shopping: terrorismo. Eu explico:
estando em Chandigarh, no norte da Índia, capital de dois estados (Haryana e Punjab), aproximamo-nos da zona complicada de Caxemira, conhecida pela tensão e conflito entre os hindus e os muçulmanos do Paquistão, que tem culminado com vários actos de terrorismo e muitas e muitas mortes.
Assim, algo simples como arranjar um cartão para o telemóvel torna-se um processo burocrático que implica fotografias, documentos de identificação, and so on and so on...
Agora que expliquei como o terrorismo vai afectando as comunicações por aqui e as entradas e saídas nos locais públicos, resta saber porque tanto se entra e sai do referido shopping... mas isso são cenas dos próximos episódios :)
Ponto 1 - Accommodation
Após a minha longa jornada fui directamente para uma casa de um estudante da Aiesec; Prateek, o meu gestor de projecto apanhou-me no aeroporto de Chandigarh e instalou-me na dita casa onde fiquei bem instalada. O calor era impossível e a humidade insuportável, mas fui muito bem recebida e acomodada. Dormi uma sesta porque estava exausta da viagem, depois de ter tomado um duche que me soube pela vida, e quando acordei saímos para conhecer mais pessoal da Aiesec. Bebemos um capuccino que também me soube pela vida, fumámos shisha (acho que fiquei viciada nisto) e ainda comemos um gelado que (adivinhem?) me soube pela vida.
De volta a casa pude usar a internet para sossegar os tuguinhas que ansiavam por saber notícias minhas :)
No segundo dia, estivemos com imensa gente da Aiesec num evento que eles promoveram para angariar mais pessoal para a organização, o qual teve lugar num centro comercial (almoçámos no universal MacDonalds).
Enquanto isto entrámos e saímos várias vezes do shopping, num processo curioso que explicarei mais tarde.
Entretanto...mudei de casa! E mais uma vez fui bem recebida e fiquei bem instalada, desta vez numa casa de família. Deixámos as malas, refrescámos e voltámos a minha primeira casa para uma surpresa de aniversário a um aiesecer, e depois fomos jantar a um restaurante indiano - eu, Prateek, Deep e Anna, uma rapariga polaca que está a fazer estágio de gestão.
Depois de jantar fiquei com uma enxaqueca terrível e fomos para a casa, que pertence à família de Ankush e Deep, um casal de irmãos da Aiesec, ambos muito simpáticos e divertidos. Apesar de serem os dois muito fixes, devo dizer que Ankush (a rapariga) parece muito doce e querida e transmite uma energia muito positiva, abraça-me convicção e até dá beijos na cara! - aqui o costume é cumprimentar as pessoas com um aperto de mão, seguido de um leve abraço, independentemente do género.
Tentei dormir mas acordei às 4 da manhã com uma dor ainda pior e nem sabia onde tinha metido os comprimidos, daí que...levantei-me e fui refrescar-me à casa de banho, mas aquilo não tinha maneira de passar! Doía-me de tal forma a cabeça que até estava agoniada, e no que é que isto deu? (mamadi não leias esta parte) - vomitei, vomitei e vomitei. Fiquei muito melhor, deitei-me e adormeci, desta vez até às 11h e pouco :)
De manhã tomei um pequeno-almoço como gosto, torradas e néctar de fruta (iupiiiiiii), preparado pela mão dos manos, que gostou muito da minha tattoo!
Ainda não consegui perceber se aquela enxaqueca foi por causa do calor, da humidade, da comida ou da falta de café, mas provavelmente foi tudo junto. O que interessa é que passou :)
Saímos de casa para...fumar shisha, que é uma actividade bastante relaxante, devo dizê-lo. É super suave e adocicado, nada que se compare ao tabaco. Além disso fuma-se em sítios específicos e sabe mesmo bem para desanuviar.
Depois de um café expresso e mais uma viagem de riquexó, lá fomos para uma reunião do comité local.
De volta a casa pude usar a internet para sossegar os tuguinhas que ansiavam por saber notícias minhas :)
No segundo dia, estivemos com imensa gente da Aiesec num evento que eles promoveram para angariar mais pessoal para a organização, o qual teve lugar num centro comercial (almoçámos no universal MacDonalds).
Enquanto isto entrámos e saímos várias vezes do shopping, num processo curioso que explicarei mais tarde.
Entretanto...mudei de casa! E mais uma vez fui bem recebida e fiquei bem instalada, desta vez numa casa de família. Deixámos as malas, refrescámos e voltámos a minha primeira casa para uma surpresa de aniversário a um aiesecer, e depois fomos jantar a um restaurante indiano - eu, Prateek, Deep e Anna, uma rapariga polaca que está a fazer estágio de gestão.
Depois de jantar fiquei com uma enxaqueca terrível e fomos para a casa, que pertence à família de Ankush e Deep, um casal de irmãos da Aiesec, ambos muito simpáticos e divertidos. Apesar de serem os dois muito fixes, devo dizer que Ankush (a rapariga) parece muito doce e querida e transmite uma energia muito positiva, abraça-me convicção e até dá beijos na cara! - aqui o costume é cumprimentar as pessoas com um aperto de mão, seguido de um leve abraço, independentemente do género.
Tentei dormir mas acordei às 4 da manhã com uma dor ainda pior e nem sabia onde tinha metido os comprimidos, daí que...levantei-me e fui refrescar-me à casa de banho, mas aquilo não tinha maneira de passar! Doía-me de tal forma a cabeça que até estava agoniada, e no que é que isto deu? (mamadi não leias esta parte) - vomitei, vomitei e vomitei. Fiquei muito melhor, deitei-me e adormeci, desta vez até às 11h e pouco :)
De manhã tomei um pequeno-almoço como gosto, torradas e néctar de fruta (iupiiiiiii), preparado pela mão dos manos, que gostou muito da minha tattoo!
Ainda não consegui perceber se aquela enxaqueca foi por causa do calor, da humidade, da comida ou da falta de café, mas provavelmente foi tudo junto. O que interessa é que passou :)
Saímos de casa para...fumar shisha, que é uma actividade bastante relaxante, devo dizê-lo. É super suave e adocicado, nada que se compare ao tabaco. Além disso fuma-se em sítios específicos e sabe mesmo bem para desanuviar.
Depois de um café expresso e mais uma viagem de riquexó, lá fomos para uma reunião do comité local.
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